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NEUSA BARBOSA
Colaboração para o UOL, do Cineweb
Exatos trinta anos após a morte do pai, o compositor Humberto Teixeira
(1915-1979), a atriz Denise Dummont ("O Beijo da Mulher Aranha", "A Era
do Rádio") está próxima de finalizar a última etapa de um projeto
iniciado há sete anos. Trata-se do documentário "O Homem que
Engarrafava Nuvens", que ela produziu, Lírio Ferreira ("Baile
Perfumado") dirigiu e tem lançamento marcado para o próximo dia 15, em
sete capitais, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador,
Fortaleza, Recife e Brasília.
Recém-chegada de Nova York, onde mora, por coincidência no dia em que o
pai completaria 95 anos (5 de janeiro), Denise lidava com o choque
térmico na chegada ao Rio de Janeiro - onde fazia uma temperatura cerca
de 20 graus acima da cidade americana - e sua expectativa em relação ao
filme. "Estou morta de ansiedade para que tudo dê certo. Espero que as
pessoas gostem", revelou ao UOL Cinema.
Nordestinidade
A escolha de Lírio, que lhe foi indicado
pelas amigas atrizes Ângela e Leandra Leal, também decorreu da intenção
de fugir do convencional. "Não queria uma coisa folclórica,
tradicional", define. A produtora conheceu, então, os filmes anteriores
de Lírio, que iniciava naquele momento seu primeiro documentário,
"Cartola - Música para os Olhos" (2006). Uma das vantagens de tê-lo à
frente de seu filme foi, segundo ela, o fato de ele "ser jovem e
nordestino, trazendo frescor e modernidade".
A
'nordestinidade' (Lírio é pernambucano, Teixeira era cearense), aliás,
está impressa em cada cena de "O Homem que Engarrafava Nuvens", que une
o passado e o presente do baião e ilustra suas ligações com outros
gêneros musicais. "Lírio me mostrou esse Brasil que está vivo e bem.
Ele foi mesmo a pessoa ideal para fazer este filme e realizou dez vezes
o meu sonho".
A concretização do filme passou, porém, por
dificuldades logísticas e financeiras. Autorizado a captar R$ 3
milhões, o filme acabou obtendo apenas R$ 2 milhões, orçamento que
ficou apertado para incluir algumas imagens de arquivo internacionais
de alto custo identificadas com o baião - como a cena do filme "Arroz
Amargo"(1949), de Giuseppe de Santis, em que a atriz italiana Silvana
Mangano canta "O Baião de Ana" em espanhol.
Para arcar com os
custos adicionais, Denise teve de vender um apartamento que tinha no
Rio de Janeiro. Mas ela não está arrependida: "O material de arquivo
que usamos é da melhor qualidade. Foi conseguido pelo Antonio Venâncio,
que descobriu preciosidades no Egito, na Itália. Além disso,
restauramos todos os materiais. Alguns mostrando imagens do Rio de
Janeiro nos anos 40 e 50, por exemplo, estavam em estado lamentável".
Fora isso, foi necessário harmonizar os vários suportes e formatos
dessas imagens, encontradas em vídeo, beta, UHF, super 8 , 16 mm e 35
mm.
História familiar
Para Denise, o filme incluiu
um outro desafio, este de ordem pessoal. Foi a sua produção, afinal,
que lhe permitiu superar definitivamente algumas mágoas do passado,
marcado por uma relação difícil com o pai e o afastamento, imposto por
ele, de sua mãe, a atriz Margot Bittencourt. No filme, Denise tem uma
conversa muito franca com a mãe - que morreu em 2007 - em que esclarece
definitivamente questões sobre o difícil desquite entre os dois, depois
do qual ela foi viver nos EUA com o novo marido, Luiz Jatobá. Advogado,
Teixeira não permitiu à mãe levar a filha, que cresceu com ele no
Brasil.
"Não sei se foi coragem ou necessidade. Quando se começa
uma coisa assim, não dá para ficar no meio do caminho", explica Denise,
ao ser perguntada sobre a dificuldade desta exposição de sua história
familiar. Por isso, ela acrescenta, este filme é, para ela, "muito
pessoal e intransferível".
Exibido também no exterior, em
festivais como o Indie Lisboa, e festivais de cinema brasileiro em
Montreal e Nova York, o documentário já despertou interesse de um
distribuidor internacional, o Cinetic Media - que manifestou a intenção
de lançá-lo em formato digital, para download. Mesmo confessando-se
fascinada pela possibilidade de que "jovens como sua filha tenham o
filme em seus ipods", cumprindo sua intenção de resgatar a memória do
pai junto às novas gerações, Denise pretende tentar lançar o filme
primeiro em cinema. Pelo menos neste aspecto, ela revela querer
"percorrer uma trajetória tradicional".Nos festivais de que o
filme participou, como no Rio em 2008 , em Fortaleza e Recife, em 2009,
o público tem aprovado. Ainda assim, Denise se preocupa: "Meu pai não
tem um nome assim imediatamente reconhecido. O documentário não se
chama 'Vinicius', 'Jobim'. Então, o desafio é fazer o filme chegar ao
público, levá-lo a saber quem ele é".
Apesar deste desejo, a produtora preferiu não optar por um título mais
direto, que revelasse de pronto que retrata o compositor que assinou
cerca de 500 canções, como as famosas "Asa Branca", "Baião", "Juazeiro"
e "Assum Preto", todas estas em parceria com Luiz Gonzaga, o rei do
baião, morto em 1989.
A produtora conta que ouviu muita gente
antes de decidir-se pelo título. Muitos a aconselharam a colocar
"Humberto Teixeira, o doutor do baião", referindo-se ao apelido do
compositor, que era advogado e foi criador de uma pioneira lei sobre
direito autoral. No entanto, ela e o diretor Lírio Ferreira concordaram
desde o início que "O Homem que Engarrafava Nuvens" seria "mais
evocativo, mais ele".
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